A Divina Comédia

Fica difícil escrever algo sobre uma Obra Prima da grandeza da Divina Comédia de Dante sem cair no lugar comum, no discurso vazio, na repetição e cópia do que muitos já disseram. Assim prefiro listar, itemizar algumas informações.

Autor: Dante Alighieri (1265 – Florença; 1321 – Ravena) Primeiro e maior poeta Italiano e um dos mais brilhantes do Mundo, “Il Sommo Poeta”. Foi também político em Florença, com especial atuação na disputa entre Guelfos e Gibelinos envolvendo o Sacro Império Romano Germânico e o Papa. Dante foi exilado e veio a falecer em Ravena.

Obra: A Divina Comédia. O nome era simplesmente original “Comédia” (no sentido Aristotélico, narrativa sobre pessoas comuns), o termo “Divina Comédia” foi criado por Giovanni Bocaccio. É  um poema Épico pleno de alegorias que narra a fictícia jornada do autor, Dante, iniciada em 1300. Ele viajou pelo Inferno e Purgatório na companhia do espírito do poeta latino Virgílio (autor do poema épico Eneida – 19 a.c), que, sendo pagão, não poderia adentrar no Paraíso. No Paraíso o  autor foi guiado pelo espírito de Beatrice (Beatriz, sua amada) e por São Bernardo.

Pode-se dizer que Virgílio simboliza a Razão, Dante o Homem, Beatriz a  ; Vê-se aí a correspondência Pai, Filho e Espírito Santo da a Santíssima Trindade. Esse caráter de tríade se repete nos também três animais, Pantera*, Leão e Loba, que ameaçam Dante na selva na qual se inicia sua viagem ao mundo dos mortos.

*o tradutor para o português nesta página citado traduziu do italiano de Dante “lonza” como “onça”. Preferi aqui substituir esse animal tão brasileiro, por algo mais genérico,  mais ao conhecimento de um florentino, uma pantera. Textos italianos preferem “Lince”, um felino bem europeu. Fica a dúvida.

O Épico se inspirou na Mitologia Grega (no seu Hades, mundo dos mortos), também na “Suma Teológica” de São Tomás de Aquino e em diversos textos clássicos e religiosos da Antiguidade e da Idade Média, numa mostra da enoreme erudição de seu autor.

Estrutura: A obra foi escrita de 1307 a 1320, sendo composta de 14.230 versos distribuídos em três Cânticos, num total 100 “cantos” (1 canto de Introdução, 33 cantos no livro Inferno, 33 do Purgatório, 33 do Paraíso). Cada Cântico ou livro (Inferno, Purgatório, Paraíso)  apresenta 9 círculos “físicos”, conforme se verá na sequência.

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Os versos são hendecassílabos (11) com tercetos de rimas ABA  BCB  CDC  DED…

Cada Canto tem, é claro, uma média de 142 versos, ou 47 tercetos. Em cada um dos três livros (Cânticos), a última palavra é “stelle” (estrelas). A obra poética foi escrita no dialeto de Firenze (Florença), não em Latim, língua literária da época.

Rimas: Tomemos um exemplo, o 1º Canto (Introdução), o qual tem 135 versos em 45 tercetos, portanto 45 rimas, as quais são todas diferentes na forma original, em Italiano, mais uma demonstração da genialidade do autor.

Apresentamos também na tabela a seguir as rimas do 1º Canto da tradução, aliás brilhante, para o português feita por Ítalo Eugênio Mauro. Verifica-se que também em português, o tradutor teve o cuidado e brilho para repetir somente pouquíssimas rimas.

Aliás,  o tradutor aqui apresentado ganhou o 42o (2000) prêmio Jabuti de tradução pela sua presente Divina Comedia.

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Conheçamos as estruturas, os diversos Círculos do “outro mundo”, aquele dos mortos conforme Dante. Ali veremos personagens conhecidos da Antiguidade e também alguns mais “recentes”, os contemporâneos de Alighieri. São poucas as almas no Paraíso, em maior quantidade no Purgatório e inúmeras, é óbvio, no Inferno. Neste último estão obviamente vários desafetos contemporâneos do autor.

Cumpre lembrar que no Inferno está incluído o “Limbo”, onde estão as almas dos que morreram antes de receber o Batismo Cristão, estando aí as crianças não batizadas e todos aqueles que, mesmo sendo bons e justos, não conheceram Jesus.

No Inferno e no Purgatório, a grande maioria dos apenados é  composta por concidaos e contemporaneos de Dante

 

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Observe-se que no Purgatório os Pecados (os 7 “Capitais”) se repetem em relação aos do Inferno, variam, porém, a gravidade e o grau de arrependimento.

No Paraíso a estrutura dos círculos de corpos celestes é pré-Copernicana, seguindo o modelo do sistema Solar Ptolomaico com a Terra ao centro, a Lua antes de Mercúrio, o Sol entre Vênus e Marte (no que seria a real posição da Terra).

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Essa estrutura vertical do mundo dos mortos, de baixo para cima – Inferno – Purgatório – o Mundo dos Vivos (a Terra) – O Paraíso, está bem arraigada no imaginário ocidental, cristão, em especial católico.

O “melhor” dos Cânticos é aquele do Inferno, instigante, assustador e até quase cômico, divertido. Segue-se o Purgatório, ficando o Paraíso como o menos interessante, um tanto quanto perfeito, seráfico, “clean”.

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Alemão – língua oficial dos USA?

A lenda Muhlenberg é uma lenda urbana dos Estados Unidos e da Alemanha. Conforme o mito, um único voto de Frederick Muhlenberg, o primeiro Presidente (“Speaker”) da Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, evitou que o Alemão se tornasse a língua oficial dos Estados Unidos.
A verdade por trás dessa lenda foi uma votação na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos em 1794, quando um grupo de imigrantes alemães pediu a tradução de algumas leis para o alemão. Essa petição, sim, foi rejeitada por 42 a 41 votos e Muhlenberg (descendente de alemães, que se absteve desse voto em particular) mais tarde teria dito: “o mais rápido que os alemães se tornem americanos, melhor será“.
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Frederick Muhlenberg
A lenda tem uma longa história, e levou a uma série de análises e artigos publicados a partir do final dos anos 1920 até o início dos anos 1950 explicando por que a história não era verdadeira.  A história foi apelidada de “lenda Muhlenberg” por volta do final dos anos 1940. No entanto, a lenda persiste.
Por exemplo, em 1987, uma carta de um ex-funcionário eleitoral no Missouri enfatizou a importância do voto numa coluna de Ann Landers. Ele incluiu uma lista de eventos alegadamente decididos por um voto no seu manual de eleição local, incluindo que “em 1776, um voto deu a América do idioma Inglês, em vez de alemão.” (em verdade, versões dessa longa lista cheia é bem anterior à menção de Ann Landers). Isso levou a uma nova rodada de notícias apontando que essa história era um mito. Alheia a correções deste tipo, Ann Landers publicou a mesma lista novamente em Novembro de 1996. Aí, um coro de respostas consternadas fez com que Landers esclarecesse o assunto em uma coluna posterior. Conforme escreveu um leitor dessa coluna, o qual implorou a Landers para “jogar fora essas peças de ficção onde quer que as encontrasse” o mito ganhou força na década de 1930 devido ao trabalho dos propagandistas nazistas.
Outra versão do mito diz que o voto foi em 1774 no Continental Congress, que apareceu em Ripley’s Believe It or Not! no início dos anos 1930. Ripley incluiu o mito também num livro de 1982 e nessa versão ele credita a história a uma suposta carta Heinrich Melchior Muhlenberg publicada em Halle an der Saale em 1887.
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Outras fontes creditam Franz von Löher como criador da lenda. Ele foium alemão que visitou a América e publicou o livro “Geschichte und Zustände der Deutschen in Amerika” ( História e  realizações dos alemães na América) em 1847. Loher situou essa votação crucial apenas na Pennsylvania, a qual foi para tornar alemão a língua oficial desse Estado, não os Estados Unidos como um todo. (Philadelphia era então a sede do Congresso norte-americano também a capital da Pensilvânia). Para confundir ainda mais a história, Muhlenburg serviu como presidente da “Pennsylvania House” antes de servir nesse título para o Congresso dos Estados Unidos. Conforme Loher, a votação estava empatada e Muhlenberg o votou no desempate para Inglês.
Existem lendas iguais com o Neerlandês e o Grego em lugar do Alemão.
Os Estados Unidos não têm língua oficial por estatuto; O Inglês tem sido usado numa base ‘de facto’, devido à sua condição de língua predominante do país. Por vezes, porém, vários estados aprovaram suas próprias leis sobre língua oficial.
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Curiosidade – uma grande quantidade de norte-americanos se dizem descendentes de Alemães

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A Fábula das Abelhas

Bernard Mandeville (Roterdã – 1670; Hackey, Londres – 1733) foi um filósofo, um satírico e economista político. Ficou célebre a também odiado devido a seu poema escrito em 1714 – The Fable of the Bees: or, Private Vices, Publick Benefits (A Fábula das Abelhas: ou, Vícios privados, benefícios públicos).

Os pensamentos Mandeville foram muito polêmicos no seu tempo, tendo sido tachados como cínicos e degradantes. Para ele, as atitudes humanas não podem ser classificadas como nobres ou vis. A virtude é algo criado pelo poder, por líderes e seus filósofos para controlar as pessoas, levá-las a obedecer e se conformar. Mandeville definiu virtude como “toda ação do homem que for contrária a seu impulso natural. Ela deve gerar beneficio aos outros ou ser usada para conquistar suas próprias paixões, com isso o homem ambiciona ser bom somente por auto-controle”. Segundo ele, a virtude prejudica sociedade, o seu progresso intelectual e inclusive o comércio. Seu contrário, o vício, comanda o auto-interesse do homem que através da criatividade, da circulação de capital, da procura pelo prazer e luxo, levam  sociedade rumo ao progresso.

Os vício e os “pecados” se opondo ás “virtudes cristãs” são necessários para produzir uma próspera economia. Sua visão é mais severa e chega a se opor àquela de Adam Smith, embora Smith e Mandeville concordem que a ação coletiva de pessoas movidas pelo amor-próprio, o interesse, traz benefícios a todos. Porém, o que diferencia a filosofia de Mandeville daquela de Smith é considerar vícios e virtudes dos indivíduos como vantagens para a coletividade. Smith defendia que virtude auto-interessada  gera uma cooperação invisível, enquanto que Mandeville prefere exagerar e dizer que a ganância viciada na opulência é o fator que produz a tal cooperação invisível. O conceito de Smith do “laissez faire”, do liberalismo, antecipou o pensamento de Mandeville de que a busca prioritária do  auto-interesses é a alavnca para o progresso econômico de uma sociedade. Assim, ele queria que políticos da sua época incentivassem, no benefício de todos, a completa liberdade de paixões e desejos dos cidadãos.

Mandeville parece brincar ao dizer que comportamentos depravados e viciosos geram efeitos na maioria positivos. Um libertino vicioso (um corrupto de hoje?) pode por meio das suas despesas com prazeres empregar alfaiates, serviçais, cozinheiros, prostitutas, perfumistas, pessoas que, por sua vez, geram empregos para padeiros, carpinteiros, pedreiros, artesãos, etc. Ele busca demonstrar assim que paixões fortes, vícios e ganância são a base para de uma sociedade bem sucedida. Hobbes já dizia que “a abstinência do amor próprio  é a morte do progresso”.

Sua obra principal, “A fabula das abelhas”, mostra que uma sociedade que tem todas as virtudes, que é composta de criaturas conformadas, contentes e honestas, acaba decaindo para uma condição apática.  As virtudes morais são hipocrisias que existem devido ao amor-próprio de quem em verdade deseja se orgulhar de ser virtuoso. São também a “descendência política da auto-bajulação com base no orgulho”. Mandeville conclui que a busca dos próprios vícios é o que gera a prosperidade, ou seja, ” osvícios privados são benefícios públicos”.

O Poema “A Fábula das Abelhas” é longo, mas vale a pena ser lido. Quem tiver preguiça, é claro, não precisa ler tudo. Leiam-se os 3 primeiros blocos e 2 últimos pelo menos;

Uma grande colméia, repleta de abelhas, 
Que viviam com luxo e comodidade, 
Porém eram tão famosas por leis e armas 
Quanto por copiosos e precoces enxames, 
Era tida como o grande berço 
Das ciências e da indústria. 
Não havia abelhas que possuíssem governo melhor, 
Maior volubilidade ou menos contentamento; 
Não eram escravas da tirania, 
Nem governadas pela desenfreada Democracia, 
E sim por reis, que não podiam errar, 
Pois seu poder era restrito por leis.

Esses insetos viviam como os homens, 
E todas as nossas ações executavam em miniaturas; 
Faziam tudo o que se faz na cidade, 
E o que é da alçada da espada ou toga, 
Embora os trabalhos engenhosos dos membros minúsculos 
De tão ligeiros escapassem à vista humana. 
Entretanto, não temos máquinas, trabalhadores, 
Navios, Castelos, armas, artífices, 
Ofício, ciência, loja ou instrumento 
Para os quais não possuíssem equivalente; 
Estes, sendo sua língua desconhecida, 
Devem ser chamados com os nomes que damos aos nossos.

Como concessão, entre outras coisas, 
Queriam dados, mas tinham reis, 
E estes tinham guardas, do que se pode, acertadamente, 
Concluir que algum jogo havia, 
A menos que exista um regimento 
De soldados que não pratique nenhum. 
Grandes números abarrotavam a fértil colméia, 
Porém essa multidão fazia com que prosperassem;

Milhões empenhavam-se em satisfazer 
Mutuamente sua cupidez e vaidade, 
Enquanto outros milhões labutavam 
Para ver destruídas suas obras. 
Abasteciam metade do universo, 
Porém tinham mais trabalho que trabalhadores. 
Alguns, com grande capital e pouco esforço, 
Lançavam-se a negócios de fabulosos lucros; 
Outros estavam condenados à foice e à espada, 
E a todos esses árduos e cansativos ofícios 
Nos quais, voluntariamente, desgraçados suam dia após dia, 
Esgotando as forças e os membros para poderem comer,

Enquanto outros se dedicavam a mistérios 
Aos quais poucos encaminhavam aprendizes, 
Que não requeriam outro cabedal senão o descaramento, 
E podiam estabelecer-se sem um centavo sequer, 
Como trapaceiros, parasitas, gigolôs, jogadores, 
Punguistas, falsários, charlatães, adivinhos 
E todos os que, inimigos 
Do trabalho honesto, astuciosamente 
Convertiam em seu próprio benefício 
O trabalho do afável e incauto próximo.

A esses chamavam velhacos, mas exceto pelo nome, 
Os austeros industriosos eram iguais; 
Todos os negócios e cargos tinham algo de desonesto, 
Nenhuma profissão era isenta de embustes.

Os advogados, cuja arte tinha por base 
Suscitar contendas e dividir causas, 
Opunham-se a todos os registros, pois as trapaças 
Poderiam dar mais trabalho com propriedades hipotecadas, 
Como se fosse ilegal que o patrimônio de alguém 
Fosse conhecido sem uma ação judicial. 
Postergavam deliberadamente as audiências, 
Para embolsar polpudos honorários, 
E, para defender uma causa iníqua, 
Examinavam e observavam as leis, 
Como ladrões que espreitam lojas e casas 
Para descobrir qual o seu ponto fraco.

Médicos valorizavam fama e riqueza 
Acima da saúde dos depauperados pacientes 
Ou de sua própria habilidade; a maior parte estudava, 
Em vez de as regras da arte, 
Olhares graves e pensativos e atitudes apáticas, 
Para ganhar a simpatia do boticário 
E elogios das parteiras, sacerdotes 
E todos os que lidavam com nascimentos e funerais, 
Suportar a incessante tagarelice da tribo, 
E ouvir a tia da dona da casa prescrever, 
Com um sorriso afetado e um cortês “como vai?” 
Para bajular toda a família 
E, o que é o pior de todos os tormentos, 
Agüentar a impertinência das enfermeiras.

Entre os muitos sacerdotes de Júpiter, 
Contratados para invocar as bênçãos do céu, 
Alguns havia sábios e eloqüentes, 
Mas milhares lascivos e ignorantes; 
Contudo, todos preenchiam os requisitos que podiam ocultar 
Sua preguiça, luxúria, avareza e orgulho, 
Pelos quais eram tão famosos quanto alfaiates 
Por sonegar retalhos e marinheiros por rum. 
Alguns, magros e pobremente vestidos, 
Rezavam misticamente por pão, 
Com isso querendo dizer uma farta despensa, 
Contudo, literalmente, não recebiam nada além. 
E, enquanto esses santos labutadores passavam fome, 
Alguns preguiçosos a quem serviam 
Abandonavam-se ao ócio, com todas as graças 
Da saúde e da fartura nas faces.

Os soldados, que eram forçados a lutar, 
Se sobrevivessem, auferiam honrarias, 
Embora alguns, que se esquivavam de brigas sangrentas, 
Houvessem sido feridos na fuga. 
Alguns generais valentes combatiam os inimigos, 
Outros aceitavam suborno para deixa-los escapar; 
Alguns aventuravam-se sempre onde a luta era mais renhida, 
Perdiam ora uma perna, ora um braço, 
Até que, totalmente inválidos, eram postos de lado, 
E viviam com a metade do soldo, 
Enquanto outros nunca apareciam no campo de batalha, 
E ficavam em casa recebendo em dobro.

Seus reis eram servidos, porém astutamente 
Logrados pelo seu próprio ministério; 
Muitos, que pelo seu bem-estar arduamente trabalhavam, 
Roubavam a própria coroa a quem salvavam; 
As pensões eram pequenas, e eles viviam à larga, 
Porém jactavam-se de sua honestidade, 
Chamando, sempre que extrapolavam seus direitos, 
Gratificação a seu logro matreiro; 
E, quando entendiam seu jargão, 
Mudavam o nome para emolumento, 
Relutantes em ser concisos ou explícitos 
Com tudo o que se referisse a ganhos; 
Pois não havia abelha que não quisesse 
Ganhar mais, não direi, do que merecia, 
Porém do que ousava permitir que soubessem 
Aqueles que lhes pagavam, como jogadores 
Que, embora jogando limpo, nunca revelam 
Aos perdedores o quanto ganharam.

Mas quem pode enumerar todas as suas fraudes? 
O próprio material que na rua 
Vendiam como esterco para enriquecer o solo, 
Freqüentemente, como descobria o comprador, 
Era sofisticado com um quarto 
De pedras e argamassa imprestáveis, 
Embora pouca razão tivesse para queixar-se 
Aquele que também vendia gato por lebre.

A própria Justiça, célebre pela equanimidade 
Embora cega não perdera o tato; 
Sua mão esquerda, que deveria sustentar a balança, 
Deixara-a muitas vezes pender, subornada com ouro; 
E, conquanto parecesse imparcial, 
Quando se tratava de punição corporal, 
Alardeava seguir curso regular 
Em assassinatos e todos os crimes violentos, 
Porém alguns, primeiro mandados ao pelourinho por desonestidade, 
Eram enforcados na própria corda com que haviam sido açoitados. 
Contudo, pensava-se, a espada que ela empunhava 
Reprimia apenas os pobres e desesperados 
Que, impelidos por mera necessidade, 
Eram amarrados à árvore dos desgraçados 
Por crimes que não mereciam tal destino, 
Senão para proteger os ricos e poderosos.

Assim, o vício imperava em cada parte, 
Embora o todo fosse um paraíso; 
Incensados na paz, temidos na guerra, 
Tinham o respeito dos estrangeiros, 
E, na abundância de riqueza e vidas, 
Eram a força preponderante entre todas as colméias. 
Tais eram as bênçãos daquele estado 
Que seus crimes conspiravam para torna-lo grandioso; 
E a virtude, que com a política 
Aprendera milhares de artifícios sutis, 
Tornara-se, pela feliz influência, 
Amiga do vício, e desde então 
O pior elemento em toda a multidão 
Fazia algo para o bem comum. 
Era essa a estatística que regia 
O todo, do qual cada parte reclamava; 
Isso, como na harmonia musical, 
Conciliava as dissonâncias no geral. 
Grupos diretamente opostos 
Ajudavam-se mutuamente, como por perversidade, 
E a temperança e a sobriedade 
Serviam à embriaguez e à gula.

A avareza, raiz do mal, 
Esse maldito, perverso, pernicioso vício, 
Era escrava da prodigalidade, 
O pecado nobre; enquanto o luxo 
Empregava um milhão de pobres, 
E o orgulho odioso, mais um milhão. 
A própria inveja e a vaidade 
Eram ministros da indústria; 
Sua extravagância predileta, a volubilidade 
No comer, vestir-se e mobiliar, 
Tornara-se, vício estranho e ridículo, 
A própria roda que movia os negócios. 
Suas leis e seus trajes eram, igualmente, 
Coisas mudáveis, 
Pois, o que em certo momento era bem visto, 
Meio ano depois tornava-se crime. 
Entretanto, enquanto assim alteravam suas leis, 
Sempre encontrando e corrigindo imperfeições, 
Através da inconstância reparavam falhas 
Que a prudência não poderia prever.

Assim, o vício fomentava a engenhosidade 
Que, unida ao tempo e ao trabalho, 
Propiciava as comodidades da vida, 
Seus verdadeiros prazeres, confortos e facilidades, 
A tal ponto que mesmos os pobres 
Viviam melhor que os ricos de outrora, 
E nada mais havia a acrescentar-se.

Como é vã a felicidade dos mortais! 
Tivessem eles noção dos limites da bem-aventurança, 
E de que a perfeição, cá embaixo, 
Está acima do que os deuses podem conceder, 
E os queixosos animais ter-se-iam contentado 
Com ministros e governo. 
Porém eles, a cada sobrevento, 
Como criaturas irremediavelmente perdidas, 
Maldiziam os políticos, o exército, as frotas, 
Enquanto cada um gritava “Abaixo os desonestos!”, 
Apesar de cônscio dos próprios defeitos, 
Dos demais, barbaramente, não tolerava nenhum.

Um, que conseguira patrimônio principesco 
Enganando o patrão, o rei e os pobres, 
Atrevia-se a bradar “Que a terra pereça 
Por todas as suas fraudes!”; e quem pensais” 
Que o patife pregador do sermão censurava? 
A um luveiro, que vendera couro grosseiro por pelica!

A menor coisa feita incorretamente, 
Ou que obstasse aos negócios públicos, 
E já todos os velhacos gritavam disfarçadamente: 
“Oh, Deus! Se ao menos houvesse honestidade!” 
Mercúrio sorria ante a imprudência, 
E outros chamavam-na falta de senso, 
Sempre a protestar contra o que amavam. 
Porém, Júpiter, cheio de indignação, 
Finalmente, irritado, jurou livrar 
Da fraude a vociferante colméia. E assim o fez. 
No mesmo momento, ela se foi 
E a honestidade encheu seus corações; 
Revelaram-se-lhes, como na árvore do conhecimento, 
Os crimes dos quais se envergonharam, 
E que então, em silêncio, confessaram, 
Enrubescendo ante sua torpeza, 
Como crianças que, desejando esconder suas faltas, 
Pela cor denunciam os pensamentos, 
Imaginando, ao serem olhados, 
Que os outros vêem o que fizeram.

Porém, oh deuses! Que consternação! 
Quão grande e súbita foi a alteração! 
Em meia hora, no país inteiro, 
A carne caiu um pêni por libra; 
A máscara da hipocrisia despencou, 
Do grande estadista ao palhaço; 
E alguns, tão conhecidos pela aparência afetada, 
Pareceram estranhos com a sua natural.

O tribunal ficou silencioso a partir de então, 
Pois agora os devedores, voluntariamente, pagavam 
Mesmo o que os credores haviam esquecido, 
E estes desobrigavam os que não podiam saldar as dívidas. 
Os que estavam sem razão calaram-se 
E desistiram dos esfarrapados e vexatórios processos, 
Com o que, já que ninguém prospera menos 
Do que advogados em uma colméia honesta, 
Todos, exceto os que tinham grandes posses, 
Partiram, levando consigo seus tinteiros.

A justiça enforcou alguns, outros libertou, 
E, após esvaziarem-se as prisões, 
Não mais sendo necessária sua presença, 
Retirou-se com todo o seu cortejo e pompa. 
Na vanguarda marcharam ferreiros, com cadeados e grades, 
Grilhões e portas com chapas de ferro; 
A seguir, carcereiros, guardas e ajudantes; 
Á frente da deusa, a alguma distância, 
Seu fiel ministro principal, 
Dom Algoz, o grande executor da lei, 
Empunhando não a espada imaginária, 
Mas seus próprios instrumentos, o machado e a corda; 
Então, em uma nuvem, a bela de olhos vendados: 
A justiça em pessoa, impelida pelo ar; 
Em volta de sua carruagem, e na retaguarda, 
Seguiram sargentos, esbirros de todas a espécie, 
Beleguins e todos aqueles funcionários 
Que das lágrimas arrancam seu sustento.

Embora vivesse a medicina enquanto houvesse doentes, 
Ninguém prescrevia senão abelhas habilitadas, 
As quais dispersaram-se tanto pela colméia 
Que nenhuma precisava de condução; 
Deixaram de lado controvérsias inúteis e esforçaram-se 
Por livrar os pacientes do sofrimento; 
Abandonaram as drogas produzidas em países desonestos 
E usaram os produtos da sua própria terra, 
Sabendo que os deuses não mandam doenças 
A nações sem remédios.

O clero despertou da preguiça; 
Não mais delegaram suas incumbências às abelhas auxiliares; 
Isentos de vício, serviram pessoalmente 
Aos deuses, com oração e sacrifício. 
Todos os que eram inaptos, ou sabiam 
Serem dispensáveis seus serviços, retiraram-se; 
Nem havia trabalho para tantos 
(se é que os honestos precisam de algum). 
Somente uns poucos permaneceram com o sumo-sacerdote, 
A quem os demais juraram obediência; 
Ele próprio ocupou-se de assuntos divinos, 
Cedendo a outro os negócios de estado. 
Não escorraçou de sua porta nenhum faminto, 
Nem roubou aos pobres seu salário; 
Em sua casa os esfomeados foram alimentados, 
Os subordinados tiveram pão sem restrições, 
E os viajantes necessitados, cama e comida.

Entre os grandes ministros do rei 
E todos os administradores subalternos 
A mudança foi grande pois, frugalmente, 
Passaram a viver de seu salário. 
Que uma abelha pobre viesse dez vezes 
Pedir o que lhe era devido, uma quantia irrisória, 
E por um escrivão bem pago fosse obrigada 
A dar algo por fora ou nunca receber, 
Seria agora considerado absoluta desonestidade, 
Embora antes fosse prerrogativa. 
Todos os lugares, antes administrados por três, 
Que vigiavam mutuamente suas velhacarias, 
E muitas vezes, por camaradagem, 
Promoviam os roubos uns dos outros, 
Felizmente passaram a ser geridos por um só; 
Com isso, foram-se outros milhares.

Nenhuma honra agora poderia satisfazer-se 
Em viver devendo pelo que gastava; 
Librés ficaram expostas em lojas de penhores, 
Desfizeram-se de carruagens por uma pechincha, 
Venderam cavalos magníficos às parelhas, 
E casas de campo para saldar dívidas.

Evitou-se o gasto inútil tanto quanto a fraude; 
Não mais mantiveram exércitos no exterior; 
Riram-se da estima dos estrangeiros 
E das glórias vãs conseguidas com guerras; 
Lutaram, mas pelo bem da pátria, 
Quando o direito e a liberdade estavam em jogo.

Olhai agora a gloriosa colméia e vede 
Como se conciliam honestidade e negócios: 
O espetáculo terminou; esvaiu-se rapidamente, 
E apresentou-se com face bastante diversa, 
Pois não só foram-se aqueles 
Que somas vultosas gastavam anualmente, 
Mas multidões, que neles tinham seu ganha-pão, 
Foram diariamente forçadas a fazer o mesmo; 
Inutilmente buscara outros ofícios, 
Pois estavam todos superlotados. 
Caiu o preço da terra e das casas; 
Palácios maravilhosos, cujos muros, 
Como os de Tebas, foram feitos para o espetáculo. 
Puseram-se para alugar, enquanto os outrora garridos, 
Bem estabelecidos deuses domésticos ficariam 
Mais satisfeitos em morrer no fogo do que ver 
A modesta inscrição na porta 
Sorrir das soberbas que eles exibiam. 
A construção civil foi aniquilada, 
Não se empregaram mais artífices, 
Nenhum pintor ganhou fama por sua arte, 
Canteiros e entalhadores não se tornaram conhecidos.

Os que permaneceram tornaram-se moderados, 
Esforçaram-se não para gastar, mas para viver, 
E, tendo pago a conta da taverna, 
Resolveram lá não mais entrar. 
Nenhuma ex-noiva de taverneiro em toda a colméia 
Pôde, então, usar tecidos de ouro e prosperar, 
Nem perdulários adiantar tão grandes quantias 
Para borgonhas e verdascos. 
Foi-se o cortesão que com sua querida, 
Diariamente ali jantava um banquete de natal, 
Gastando, em duas horas de estada, 
O que sustentaria o dia todo uma tropa de cavalaria.

O arrogante Cloé, que para viver à grande, 
Fizera seu marido roubar ao Estado, 
Agora, contudo, vendeu sua mobília, 
Que fora saqueada nas Índias, 
Reduziu o dispendioso cardápio, 
E usou um ano inteiro os mesmo trajes duráveis: 
A era da futilidade e do capricho passou, 
E as roupas, bem como as modas, permaneceram. 
Tecelões que produziam ricos brocados 
E todos os ofícios subordinados 
Extinguiram-se. Ainda reinava a paz e a abundância, 
E tudo era barato, porém simples. 
A bondosa Natureza, livre do jugo dos jardineiros, 
Concedia todos os frutos no seu próprio tempo; 
Contudo, raridades não se podia mais obter 
Quando os esforços para consegui-las não eram pagos.

À medida que minguaram orgulho e luxo, 
Gradativamente deixaram os mares, 
Agora não os mercadores, mas companhias. 
Fecharam fábricas inteiras. 
Todas as artes e ofícios foram abandonados. 
O contentamento, ruína da indústria, 
Fê-lo apreciar seu estoque caseiro 
E não buscar nem cobiçar mais.

Assim, poucos permaneceram na vasta colméia; 
Não puderam manter nem a centésima parte 
Contra as afrontas dos numerosos inimigos, 
A quem, valentemente, enfrentavam, 
Até encontrar algum refúgio bastante fortificado, 
Onde morriam ou defendiam seu território. 
Não houve mercenários em seu exército; 
Bravamente, lutaram eles próprios. 
Sua coragem e integridade 
Foram finalmente coroadas com a vitória. 
Triunfaram, porém não sem custo, 
Pois milhares de abelhas pereceram. 
Calejadas dos árduos trabalhos e exercícios, 
Consideraram vicio a própria comodidade, 
O que aperfeiçoou de tal modo sua moderação. 
Que, para evitar extravagâncias, 
Voaram para uma árvore oca, 
Abençoadas com satisfação e honestidade.

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Cartas – Baralho Espanhol

O baralho espanhol data do século XV.
Existe em duas versões, com 40 ou 48 cartas, sendo quatro os “naipes”. Cada naipe tem suas cartas com números de 1 a 12 contínuos (na versão de 48 cartas) ou com numeração também de de 1 a 12, porém, sem cartas 8 e 9 (pula do 7 para 10); Há versões com dois coringas ainda, chamados também comodines.
As figuras têm os números 10, a Sota (ou valete), 11, o Cavaleiro (ou cavalo) e 12, o Rei. Correspondem no “nosso” baralho tradicional Francês, respectivamente, ao Valete (J ou V), à Dama (Q ou D) e ao Rei (K ou R). A diferença em relação ao baralho francês está no fato de que neste último as figuras têm valores 11, 12 e 13.
Os quatro naipes são: ouros, espadas, copas e bastos (nosso paus) e as imagens são bem literais na sua representação. Os naipes se classificam em “curtos” – ouro e copas (no Baralho Francês – vermelhos) e “largos” – espadas e bastos (no Baralho Francês  – pretos).
Na sua versão mais tradicional e “oficial” a cercadura das imagens (ver a seguir) varia conforme o naipe. Essa diferença está nas linhas horizontais superior e inferior. Em ouros são linhas contínuas, em copas com uma interrupção, em espadas são linhas com duas interrupções e em bastos com três interrupções. Essas marcações têm nome de “la pinta”.
ESPADAS   e   BASTOS
Bar.Espanhol.1
OUROS e COPAS
Bar.Espanhol.2
Com esse baralho jogam-se os seguintes jogos de cartas:mus, truco, escopa de quinze, bisca, menos copas, três sete (italiano), zanga, aluette, manilha, revesino, envite canario, tute, jodete, julepe, guiñote, tresillo, hombre, gilé, hachi-hachi,  perejila, gofo, burro, mata, sarangollo, sete e meio

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O Dr. Sabe-Tudo

Maravilhoso, divertido e instigante c0nto do grande Somerset Maughan, autor de obras primas como “O fio da Navalha” e “Servidão Humana”

Vale a pena ler, não é longo, nos prende do início ao fim.

Estava disposto a antipatizar com Max Kelada antes mesmo de conhecê-lo.

Terminara a guerra e era grande a afluência de passageiros aos navios de carreira. Dificilmente se conseguia acomodação e quem desejasse viajar tinha que se conformar com o que as agências ofereciam. Ninguém pensava na possibilidade de ocupar sozinho um camarote, e me senti feliz quando me deram um onde havia apenas duas camas. Mas quando me disseram o nome do companheiro, a minha satisfação se desfez. Era como uma sugestão de vigias rigidamente fechadas, ausência de ar no camarote, durante a noite.

Já era desagradável compartilhar de um camarote durante quatorze dias (eu viajava de São Francisco para Yokoama); mas a partilha ter-me-ia parecido menos desalentadora se o passageiro se chamasse Smith ou Brown.

Quando embarquei já estava no camarote a bagagem do Sr. Kelada. Desagradou-me o aspecto; rótulos em excesso nas malas de mão e demasiado grande a mala de camarote.

O Sr. Kelada já retirara do estojo os objetos de toucador, e observei que era cliente do maravilhoso Mousieur Coty, pois no lavatório o seu perfume, a sua loção e a sua brilhantina. As escovas do Sr. Kelada, em suportes de ébano com o monograma em ouro, eram o que havia de melhor na matéria.

Antipatizei inteiramente com o Sr. Kelada.

Dirigi-me para a sala de fumar. Pedi um baralho e pus-me a jogar “paciência”. Mal começara, aproximou-se alguém, perguntando-me se o meu nome não era esse mesmo.

— Eu sou o Sr. Kelada — acrescentou, com um sorriso em que mostrava uma fila de dentes brilhantes; e sentou-se.

— Ah, sim, creio que estamos no mesmo camarote.

— É o que chamo de sorte. A gente nunca sabe com quem vai no camarote. Fiquei contentíssimo ao saber que você era inglês. Gosto muito que nós, ingleses, fiquemos juntos, a bordo, está entendendo?

Pestanejei.

— É inglês? — perguntei, talvez sem habilidade.

— Totalmente. Acha-me parecido com um americano? Sou inglês até a medula.

Para prová-lo, o Sr. Kelada tirou do bolso um passaporte e, ufano, agitou-o junto ao meu nariz.

O Rei Jorge tem muitos súditos estranhos. O Sr. Kelada era baixo e de construção vigorosa, moreno e escanhoado; possuía um nariz carnudo e adunco, e uns olhos muito grandes, brilhantes e límpidos.

Os cabelos negros e longos eram reluzentes e encaracolados. Falava com uma fluência nada inglesa e os gestos eram exuberantes. Tinha a íntima convicção de que um exame mais detido naquele passaporte britânico me revelaria que o Sr. Kelada nascera sob céu mais azul do que se vê geralmente na Inglaterra.

— O que vai tomar? — perguntou-me.

Olhei-o hesitante. A lei seca estava em vigor e, segundo todas as aparências, o navio estava integralmente seco.

— Quando não estou com sede, não sei se o que me desagrada mais é “ginger ale” ou limonada.

Mas no rosto do Sr. Kelada um sorriso oriental.

— Uísque com soda, ou Martini seco, é só dizer a palavra.

De cada um dos bolsos posteriores das calças retirou um frasco, colocando-o sobre a mesa, diante de mim. Escolhi o martini. Ele chamou o garçom e pediu gelo e dois copos.

— Um ótimo coquetel — disse eu.

— Pois há em quantidade na fonte de origem, e se você tiver amigos a bordo, diga-lhes que descobriu um indivíduo que dispõe de todo o álcool do mundo.

O Sr. Kelada era loquaz. Falou de Nova Iorque e de São Francisco. Discutiu peças de teatro, filmes, política. Era patriota. O pavilhão britânico é um impressionante pedaço de pano, mas quando é enfeitado por um homem de Alexandria ou Beirute, não posso evitar a impressão de que perde um quê de sua dignidade. O Sr. Kelada era íntimo. Não gosto de me fazer importante mas julgo sempre inconveniente que uma pessoa totalmente estranha não me conceda o tratamento de senhor. O Sr. Kelada certamente para me deixar à vontade, não usava tal formalidade. Não gostei dele. Deixei as cartas de lado quando ele se sentou: mas, achando que para a primeira vez a nossa conversa já se estendera demais, continuei com a “paciência”.

— O três no quarto — disse o Sr. Kelada.

— Nada há demais desesperante quando estamos jogando paciência do que nos dizerem onde devemos por a carta que viramos, antes de termos tempo de olhar por nós mesmos.

— Está andando, está andando — gritou: — O dez no valete.

Com o coração cheio de ódio, terminei o jogo. Neste momento ele segurou o baralho.

— Gosta de truques com cartas?

— Não; detesto truques com cartas, respondi.

— Bem, vou mostrar-lhe só este.

Mostrou-me três. Depois, disse que ia descer para o salão de refeições e escolher um lugar.

— Oh, não se incomode — disse ele. Já reservei um lugar para você. Achei que, como estávamos no mesmo camarote, bem podíamos sentar-nos à mesma mesa.

Sim, eu não gostava do Sr. Kelada. Não somente eu compartilhava o camarote com ele e fazia três refeições por dia na mesma mesa, como também não podia passear pelo convés sem que se juntasse a mim. Era inútil fingir que não o via. Nunca lhe ocorria que não era desejado. Tinha a convicção de que os outros ficavam tão contentes de vê-lo como ele de os ver. Se estivéssemos em casa, poderíamos empurrá-lo escada abaixo, batendo com a porta, sem que surgisse no seu cérebro a suspeita de que não era uma visita desejada. Era muito sociável e, em três dias, já se dava com todo o mundo a bordo.

Dominava tudo. Arranjava apostas, dirigia leilões, organizava subscrições para os prêmios nas competições esportivas, inventava partidas de chinquilho, promoveu o concerto e o baile à fantasia. Estava sempre em toda a parte. Sem dúvida, era o homem mais odiado do navio. Chamavamos-lhe o Dr. Sabe-tudo, mesmo diante dele. O Sr. Kelada considerava-se elogiado. Mas, nas horas das refeições era que se tornava ainda mais intolerável. Então, durante a melhor parte de uma hora, tinha-nos à sua mercê. Era jovial, veemente, loquaz e questionador. Sabia tudo melhor do que qualquer pessoa; e afrontava a sua vaidade presunçosa quem discordasse dele. Não abandonava um assunto, por menor importancia que tivesse, a não ser quando conseguisse reduzir o interlocutor ao seu ponto de vista. Nunca lhe ocorria a possibilidade de que pudesse estar equivocado. Era o homem que sabia.

Sentávamo-nos à mesa do médico. O Sr. Kelada sem dúvida manteria pacificamente a hegemonia, pois o médico era preguiçoso e eu, frigidamente indiferente; mas havia também um homem chamado Ramsay como companheiro de mesa. Era tão dogmático como o Sr. Kelada e irritava-se amargamente com a inabalável firmeza do levantino. As discussões que travaram eram ardentes e intermináveis. Ramsay estava no serviço consular dos Estados Unidos em Kobe. Era um americano do meio oeste, grande e pesado. A gordura esticava-lhe a epiderme, e por sua vez esticara-lhe seus ternos de confecção. Viajava de volta para o seu posto, depois de uma rápida visita a Nova Iorque onde fora buscar a mulher, que estivera passando um ano em sua terra.

A Sr.ª Ramsay era uma mulher miúda e linda, de maneiras agradáveis e portadora de senso de humor. O serviço consular é mal pago e ela vestia com simplicidade, mas sabia tirar partido de seus vestidos. O efeito que causava era de serena distinção. Não teria lhe prestado atenção particular se ela não tivesse uma qualidade que poderá ser bastante comum nas mulheres, mas que hoje não é comum no comportamento delas. Não era possível olhar a Sr.ª Ramsay sem notar desde logo a sua modéstia. Fulgia na sua pessoa como uma flor na lapela. Uma noite, durante o jantar, a conversa casualmente recaiu sobre o tema pérolas.

Os jornais vinham noticiando a cultura de pérolas pelos hábeis processos dos japoneses e o médico observou que as pérolas cultivadas diminuiriam o valor das verdadeiras. Aquelas já eram ótimas; em breve seriam perfeitas. O Sr. Kelada, como era de seu hábito, embrenhou-se no novo tema. Disse-nos tudo o que havia sobre pérolas. Creio que Ramsay soubesse pouco sobre elas, mas não pôde resistir à oportunidade de zombar do levantino e, em cinco minutos, estávamos numa discussão exaltada.

Eu já assistira a outros gestos de impetuosidade e volubilidade do Sr. Kelada, nunca, porém, o vira tão impetuoso e volúvel como agora. Finalmente, estimulou-o qualquer coisa que Ramsay disse, porque ele deu um soco na mesa e gritou:

— Bem, acho que entendo do que estou falando. Vou ao Japão exatamente para tratar desse negócio de pérolas. Estou no ramo e não há qualquer homem no ramo que não lhe afirme que o digo sobre pérolas é lei. Conheço as melhores pérolas do mundo e o que não conheço não vale a pena conhecer.

Eram novas para nós, porque o Sr. Kelada, apesar de toda sua loquacidade, não dissera a ninguém qual a sua ocupação. Sabíamos apenas vagamente que ia ao Japão a negócios. Olhou a volta da mesa, triunfalmente.

— Os japoneses jamais conseguirão uma pérola cultivada que um perito, como eu, não conheça, olhando-a com o canto do olho. — Apontou para o colar que a Sr.ª Ramsay usava: — Pode confiar na minha palavra, Sr.ª Ramsay: “este colar que a senhora está usando nunca valerá um centavo menos do que vale agora.”

A Sr.ª Ramsay, à sua maneira modesta, corou um pouco e empurrou o colar para dentro do vestido. Ramsay inclinou-se para a frente. Olhou para nós todos. Um sorriso brincava nos seus olhos.

— É um belo colar, esse da minha mulher, não acha?

— Notei-o logo — respondeu o Sr. Kelada — Hanhan, disse cá comigo; essas pérolas são verdadeiras.

— Não fui eu quem as comprou, naturalmente. Gostaria de saber quanto calcula que custaram.

— Oh, no comércio em grosso devem ter andado em quinze mil dólares. Mas se forem compradas na Quinta Avenida, não me surpreenderia se dissessem que o preço andou pelos trinta mil.

Ramsay sorriu com crueldade.

— Pois vai surpreender-se ao saber que a minha comprou esse colar no balcão de bijuterias de uma loja de departamentos na véspera de nossa saída de Nova Iorque por dezoito dólares.

O Sr. Kelada ruborizou-se.

— Tolice! O colar é legítimo; é, pelo tamanho, um dos mais belos que eu já vi.

— Quer fazer uma aposta? Aposto cem dólares como é imitação.

— Aceito.

— Ora Elmer, você não pode apostar numa certeza — disse a Sr.ª Ramsay.

Trazia um leve sorriso nos lábios e o tom de sua voz era levemente súplice.

— Acha? Se tenho uma oportunidade como esta de ganhar dinheiro facilmente, seria um tolo se não aproveitasse.

— Mas como vamos provar? — continuou ela. — é apenas a minha palavra contra a do Sr. Kelada.

— Permita-me examinar o colar; se for imitação, hei de lhe dizer logo. Posso perder cem dólares.— Disse o Sr. Kelada.

— Tire-o querida. Deixe o Sr. Kelada examiná-lo à vontade.

A Sr.ª Ramsay vacilou um momento. Levou as mãos ao fecho. — Não posso abrir — disse — O Sr. Kelada terá de contentar-se com a minha palavra.

Invadiu-me a súbita suspeita de que estava para acontecer qualquer coisa infeliz, e não me ocorreu nada para dizer. Ramsay levantou-se bruscamente.

— Eu abro.

Entregou o colar ao Sr. Kelada. O levantino retirou do bolso uma lupa e examinou-o atentamente. Um sorriso de triunfo espalhou-se pelo rosto liso e trigueiro. Devolveu o colar. Ia falar quando subitamente reparou no rosto da Sr.ª Ramsay. Estava tão pálido que parecia que ela ia desmaiar. Encarava-o de olhos muito abertos, aterrorizados. Transmitia um desesperado apelo; tão claro que estranhei que o marido não o notasse. O Sr. Kelada ficou silencioso, a boca entreaberta. Enrubesceu violentamente. Quase podia ver-se o esforço que fazia sobre si mesmo.

pearls

— Enganei-me — disse — É uma excelente imitação, mas naturalmente, quando examinei o colar com a lupa, vi que não era legítimo. Creio que vale dezoito dólares, no máximo.

— Talvez isso o ensine a não ser tão auto-suficiente de outra vez, meu jovem amigo — disse Ramsay tomando a nota.

Notei que as mãos do Sr. Kelada tremiam.

A história espalhou-se pelo navio, como sucede sempre com as histórias e, naquela noite, ele teve de enfrentar a zombaria de muitos. Era um grande motivo para hilaridade o ter sido apanhado em erro o Dr. Sabe-Tudo. Mas a Sr.ª Ramsay se retirou para o camarote com uma dor de cabeça.

Na manhã seguinte, levantei-me e pus-me a fazer a barba. O Sr. Kelada permanecia deitado, fumando. Subitamente, ouvi um pequeno roçar, e vi uma carta deslizando por baixo da porta. Abri a porta e olhei para fora. Não havia ninguém. Tomei da carta e vi que estava endereçada para o Sr. Kelada. O nome estava escrito em letras de fôrma. Entreguei-lhe.

— De quem é? — Abriu-a. — Oh!

Tirou do envelope não uma carta, mas uma nota de cem dólares. Olhou para mim e tornou a enrubescer. Rasgou o envelope em pedacinhos e os pôs na minha mão.

— Quer fazer o favor de atirar pela vigia?

Fiz o que me pedia e depois olhei-o com um sorriso.

— Ninguém gosta de passar por um perfeito idiota — disse ele.

— As pérolas eram legítimas?

— Se eu tivesse uma linda mulher, não a deixaria passar um ano em Nova Iorque, enquanto eu estivesse em Kobe… — disse-me.

Nesse momento, não antipatizei de todo com o Sr. Kelada. Ele estendeu a mão, tirou a carteira, e nela colocou cuidadosamente a nota de cem dólares.

 

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Utopia – resumo do livro

A UTOPIA

“Sobre o melhor estado de uma república e sobre a nova ilha de Utopia”

“Libellus vere aureus, nec minus salutaris quam festivus, de optimo rei publicae statu deque nova insula Utopia”

utopiaLivro

 Autor Tomás Morus (Tomas Moore; Londres 1478 – 1535); Político e chanceler do reino da Inglaterra sob Henrique VIII. Era católico fervoroso e asceta, pensador humanista, jurista e estudioso de grego. Contava com grande prestígio junto ao rei Henrique, mas, por se opor ao divórcio do soberano e também ao rompimento da Inglaterra com o Papa e o catolicismo, foi preso e decapitado.

Foi homenageado pela Revolução Russa de 1917 e também canonizado pela Igreja Católica em 1935.

Erasmo de Roterdã escreveu sua obra “o Elogio da Loucura” quando esteve hospedado com Morus.

Pensamentos expressos em Utopia

1) Morus era adepto do Cristianismo puro, aquele original e, assim, sempre se opôs as “luxos desnecessários” da Igreja na Europa. Sempre respeitou as interpretações da poder papal para a Bíblia, porém sempre deu grande valor aos pensamentos expressos pelas ordens mendicantes.

2) Morus sempre se revoltou contra a injustiça social que ele conhecia da Inglaterra de seu tempo, na qual os camponeses trabalhavam arduamente para sustentar os luxos da nobreza e do clero. Escrevendo Utopia Morus mostra uma sociedade ode tudo é igualitário em termos de gênero, posses, renda, trabalho, faixa etária. Ele já percebe aí a contradição socialista, pois fica claro que a igualdade é inversa à liberdade, a busca do conforto e da segurança. Não há, é claro, em Utopia ampla liberdade, pois somente depois de todos os interesses coletivos serem plenamente atendidos sobraria espaço para suprir os diferentes interesses dos indivíduos. Daí a extrema importância da Justiça em Utopia para cuidar do delicado equilíbrio entre liberdade e segurança dos cidadãos.

3) Ao contrário do pensamento de Maquiavel, Morus insiste em crer num ser humano naturalmente bondoso, despido do individualismo egoísta, com disposição para se livrar do apego aos bens materiais dando preferência ao uso coletivo de tudo. Isso vem da influência platônica, partindo do plano abstrato das ideias, depois indo ao plano concreto, material.

4) Morus teria, assim, se inspirado em Platão, na sua obra “República”, para escrever “A Utopia”. Sua obra é uma crítica ao sistema de vida na Inglaterra e da Europa do final do século XV. “A Utopia” inspirou os pensamentos e filosofias socialistas do século XIX.

A obra

A obra, chamada “A Utopia, ou  O Tratado da Melhor Forma de Governo” foi escrita em Latim. É composta de uma Introdução, de um Primeiro Livro e um Segundo Livro, sendo que a introdução e o 2º livro foram escritos, em 1515, em Flandres (porção flamenga no norte da Bélgica), onde Morus fora por solicitação de Henrique VIII para negociar com Carlos I de Castela (Carlos V do Sacro Império Romano Germânico). Por sua vez, o chamado 1º livro foi escrito em 1516, em Londres;

Na introdução lê-se uma carta fictícia de Thomas Morus a seu amigo Peter Giles (em português Pedro Egídio) Ali, Morus se desculpou pelor atraso no envio do trabalho e diz que se trata de uma simples transcrição do que ambos ouviram contar pelo filósofo e navegador português Rafael Hitlodeu sobre a ilha de Utopia. O 1º livro, aquele escrito em Londres em 1516, se apresenta uma conversa já citada acima entre Morus, Peter Giles e Rafael Hitlodeu, o qual  teria visitado diversas novas civilizações com costumes diferentes bem diferentes daqueles da Europa. Ali, Hitlodeu se declara decepcionado com o que conhecera sobre reis nações onde só se vê egoísmo, inveja, preconceitos e desigualdade social, tudo consequência, segundo ele, da existência da propriedade privada. Ele se propõe, porém, a mostrar um raro bom exemplo de nação, Utopia, cuja descrição está no 2º livro;

Essa descrição da ilha no 2º livro feita através de Raphael Hitlodeu, que seria um membro de um grupo de 6 homens que se separou da tripulação durante uma viagem, uma expedição comandada por Gonçalo Coelho a serviço de Fernão de Loronha,na qual estava também o mui conhecido navegante. Américo Vespúcio. Esse grupo passou cinco anos na comunidade de Utopia . Vespúcio escreveu uma carta sobre a descoberta do hoje nosso arquipélago de Fernando de Noronha durante essa viagem e essa correspondência sobre a ilha inspirou Morus. ( imagem 3)

utopiaNoronha

 

Informações prestadas por Rafael Hitlodeu:

Nome

Utopia significa hoje tudo o que for ideal, imaginário, fantástico. Pode referir-se a uma cidade, país ou mundo, algo que existiria no futuro ou mesmo  no presente, num universo paralelo. Foi um nome criado por Morus para significar literalmente um “lugar que não existe”, um “não lugar” (do Grego)

Geografia

Utopia é uma ilha cujo formato lembra um crescente com uma baía ao centro. A meio caminho da extensão da entrada dessa baía (extremos da “meia lua”) fica uma fortaleza (ver na imagem 1 as dimensões de Utopia). Esse formato é fruto do trabalho dos seus habitantes sob o comando do primeiro rei, Utopos. Um istmo de que unia a ilha ao continente (terra de Abraxa)  foi eliminado e a baía foi cavada permitindo a entrada do mar. O rio Anidro (grego – sem água) é o maior do país, havendo um outro menor. A fundação dessa nação ocorreu uns 1750 anos antes do início do século XVI. utopiaMapa

Cidades 

A capital é Amaurota que fica no centro da ilha. Há ainda mais 53 cidades-estado quase idênticas em população, área construída e recursos. As cidades se distribuem de forma harmônica e suas distâncias em relação à vizinhas são quase iguais (ver imagem 2).As casas são todas iguais, têm duas portas, uma frontal e outra para a horta, o pomar. Essas residências não pertencem aos cidadãos, pois não há propriedade privada. A cada dez anos ocorre um sorteio e as pessoas devem trocar de casas.

utopiaCidades

Agricultura, minerais

Cada cidade tem sua área rural, fazendas com casas que incluem ferramentas e utensílios para agricultura. Alternadamente, a cada dois anos as pessoas devem passar dois anos nessas fazendas como agricultores, A cada ano, metade dos agricultores volta para a cidade e uma mesma quantidade de citadinos vai para o campo. Esses últimos aprendem seu trabalho com a metade de experientes que lá estão e deverão ensinar os que vierem no próximo ano.

O que é plantado é distribuído pela população, o que sobra é exportado a preço módicos. O que é arrecadado nessa exportação é usado para obter produtos como ferro, ouro, prata, metais não presentes na ilha e que são usados para pagar, em caso de guerra, mercenários. O ouro e a prata têm poucos outros usos, como fazer correntes e cadeias para os escravos.

 Organização política e social

A população está organizada de forma patriarcal nas famílias, sendo o homem mais velho o comandante. Cada trinta famílias são lideradas por um líder denominado Sifogrante (do grego- sábio eólico) escolhido anualmente. Cada dez Sifograntes são liderados por um Traniboro (do grego – franco e glutão) que também é eleito a cada ano. São 200 os Sifograntes de cada cidade, os quais por voto secreto escolhem um Príncipe, dentre 4 candidatos eleitos pelos votos de cada um dos 4 bairros da cidade. O príncipe pode ser deposto se tiver um comportamento tirano. Não havendo urgência, os Traniboros  se reúnem periodicamente no Senado com o Príncipe, sendo acompanhados por 2 Sifograntes, duplas que variam a cada reunião. Consultas sobre a República fora do Senado podem ser punidas com a morte e com isso se evitam  conspirações. Os Sifograntes informam às famílias sobre as questões mais importantes para serem discutidas e um consenso deve ser formado para o Sifogrante levar ao Conselho. O Senado é único para toda a ilha e se localiza na Capital. Ali são decididas questões que interessam a Utopia como um todo.

Organização do trabalho

Todos os cidadãos aptos (homens e mulheres) sabem praticar a agricultura, podendo também escolher outros ofícios de cidade conforme seus interesses, necessidades e habilidades. A jornada de trabalho é de seis horas diárias, consideradas suficientes para fornecer à comunidade tudo o necessário para uma vida confortável. As demais horas do dia são livres, mas encorajam-se atividades que exijam inteligência e criatividade, tais como leitura, jogos matemáticos, música, etc .

Educação

A primeira educação das crianças é feita por religiosos que ensinam virtudes, moralidade, bons costumes. Esses padres educadores são poucos porque é preciso dar-lhes proteção especial pela importância de suas tarefas e também porque era difícil encontrar jovens com vocação para tão venerada atividade.

Escrita e Língua

Peter Giles com o auxílio do próprio Morus criou (imaginou) um esboço da língua Utopiana, a qual tem como base o Grego, o Latim e o Hebraico. Dessa língua existe somente um poema, um quarteto do qual se pôde intuir um pouco do seu vocabulário e gramática.

O seu alfabeto tem 22 letras correspondentes a “nossas” letras  a, b, c, d, e, f, g, h, i, k, l, m, n, o, p, q, r, s, t, v, x, y. As letras f, k, q, x só são usadas para palavras de origem não utopiana. (imagem 4)

utopiaAlfabeto

Religião e saúde

A liberdade religiosa é total , havendo respeito e tolerância para quaisquer religiões da Ilha. São punidos atos de conversão forçada para qualquer credo. A moral é pacifista e ao mesmo tempo hedonista. O ateu, aquele que defende a ideia da morte da alma juntamente com o corpo está sujeito a castigo.

Em termos de filosofia, religião e ciência os Utopianos nada deviam às nações europeias da época, buscando sempre a felicidade com honestidade e ética.

Toda população recebe ampla assistência médica necessária. Caso não haja cura e reste algum sofrimento, o doente pode optar pela eutanásia sob a benção de sacerdotes. Porém, o suicídio sem tal motivo torna o suicida indigno de sepultura e o corpo é lançado num pântano.

Viagens

Quando um cidadão quer viajar dentro de Utopia, deve informar as autoridades sobre seus motivos, destino, tempo de viagem. Caso não haja nenhum impedimento, tudo é providenciado para facilitar esse deslocamento. A maioria dispensa essa ajuda, pois em qualquer local onde alguém for haverá sempre onde se alimentar e dormir. Viajar sem a devida permissão é considerado um crime. Quando a viagem demorar mais de um dia em algum local, deverá ali o viajante obrigatoriamente exercer seu ofício

Moralidade e Casamento

Em Utopia não existem tabernas, prostituição, seitas secretas, não há miséria, não há mendicância.

O sexo antes do casamento não é permitido e implica em desonra à família. As mulheres podem casar a partir dos 18 anos e os homens aos 22. Antes do casamento os noivos podem se ver, um ao outro, despidos, podendo eventualmente desistir da união ao perceber defeitos físicos.

Em Utopia o casamento é para sempre, exceto pela morte de um dos conjugues. Quando ocorre um adultério, a pessoa adúltera é considerada infame, deve viver em celibato e pode se tornar escrava. Quem reincide em adultério é executado. A pessoa traída pode casar de novo. Pode haver divórcios no caso de grande incompatibilidade de gênios, sendo que os pedidos são analisados pelo senado.

Escravos

A maioria dos crimes é punida com escravidão. A revolta de um escravo é punível com morte. Os escravos podem se tornar livres se tiverem bom comportamento e assim quiserem. Também se tornam escravos os prisioneiros de guerra que estiverem armados quando da captura. Filhos de escravos já nascem livres e escravos de nações estrangeiras são libertos em Utopia. Os trabalhos para os escravos nascidos na ilha, aqueles escravizados por punição, são os mais penosos e difíceis. Trabalhadores de regiões vizinhas podem se oferecer voluntariamente para o trabalho escravo em Utopia, podendo deixar essa condição se assim o quiserem.

Guerra

Mesmo a guerra sendo abominada pelos utopianos, todos devem se preparar para essa contingência e devem ter capacidade para o combate. Só motivos gravíssimos, como proteção de seu território ou libertar nações amigas de alguma tirania, levam Utopia a uma guerra. Isso somente ocorre após muitas negociações, inclusive havendo a indução dos povos e até de facções adversárias dentro das nações inimigas a trair seus governantes e se aliar aos interesses utopianos.

Sendo uma guerra inevitável, Utopia contrata mercenários entre seu guerreiro povo vizinho, os zapoletas, ou mesmo exércitos de algumas nações amigas, para guerrear por ela. Os utopianos somente vão eles próprios à guerra em último caso, sendo voluntário o alistamento, a menos de invasão do território de Utopia.

 

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Mãe – começando com M?

Desmond Morris em seu livro “o macaco nu” lembra que a palavra MÃE começa com o som M na grande maioria das línguas. Aqui falamos em som e não letra M pois fizemos um levantamento simples (via Google Tradutor) em 92 línguas, muitas das quais não usam a nossa escrita, o nosso alfabeto.

Obviamente, nesta apresentação as palavras das línguas que não usam o alfabeto latino estão devidamente transliteradas.

Não nos detivemos com mais profundidade no real significado de cada tradução Google para Mãe e Pai, porém, para uma ideia bem aproximada do que é, por exemplo, “começar com M”, o estudo é bem confiável.

Dentre essas 92 línguas , cerca de 59% têm a palavra Mãe iniciando com M.

A pesquisa incluiu também a palavra Pai e se observa que aí não há quase nenhuma universalidade, o que se explica pois Mãe é um conceito mais universal, mais físico, mais natural, enquanto que Pai é algo mais cultural, mais um fruto do conceito de família, mais da civilização recente.

Esse fenômeno de Mãe iniciar com o som M é quase universal dentre as línguas Indo-Europeias, o que pode ser visto na tabela que apresentamos aqui.

Curiosidade – vejam como é Pai em Georgiano

MAE-M

Reputamos esse fato, iniciar com som M, à facilidade que tê os bebês para pronunciar um som bilabial, algo que teria se originado do ato de sucção quando os pequenos mamam.

Outros sons que não exigem dentição são as palavras iniciadas por vogais ou ditongos seguidos pelo próprio som M, ou N ou mesmo outra vogal.

A terceira maior presença, como se vê a seguir, está nas palavras de início N, uma consoante, aliás, também nasal como o M e de fácil pronúncia. Observe-se que nas línguas da Indonésia, a palavra Mãe inicia com vogal seguida da vogal bilabial B, fácil de pronunciar sem dentição.

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Aqui apresentamos uma opinião do amigo Júlio César Pedrosa, a qual enriquece os conhecimentos sobre palavras para Mãe e Pai:

Em Tupi “pai” é T-UBA (este T- é um prefixo relacional). Mas não se traduz exatamente como “pai”, pois designa também os irmãos homens do pai (ou seja, não se distinguem do pai os tios paternos). Da mesma forma, SY significa, mais precisamente, “mãe” ou “tia materna”, não se distinguindo, então, a mãe das irmãs dela. Estes conceitos estão relacionados ao sistema de parentesco e coibição do incesto, pois um homem dessa cultura poderia casar-se com uma sobrinha, por exemplo, desde que fosse filha de sua irmã, mas não de seu irmão (seria, neste caso, tida como sua filha, pois é da mesma linhagem paterna).

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